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A Democracia, hoje

Uma recente sondagem diz-nos que 87 por cento dos portugueses estão desiludidos com a Democracia. Ocupados com a ‘espuma dos dias’ e com preocupações bem reais, temo que não se preste a atenção devida a este indicador. O que é mais um sintoma da doença. Por estes dias, andamos demasiado ocupados a procurar culpados pela situação, a apontar os erros dos outros, a criticar os cortes na nossa vida… Dir-me-ão que a situação está tão difícil que não sobra tempo para outras preocupações que não sejam as do dia-a-dia. Será verdade, ou será parte significativa da verdade. Percebo que assim seja, percebo que o cidadão comum ande amargurado, preocupado, com receio do que lhe trará, de pior, o dia de amanhã. Já não percebo que cidadãos com especiais responsabilidades mantenham o mesmo rumo, o mesmo discurso, face ao que vamos vivendo há tantos anos. Perante uma situação de emergência que devia ser reconhecida por todos, não percebo a manutenção de um discurso político ‘clubístico’ de separaç...

A vez do Governo

A comunicação do primeiro-ministro na passada sexta-feira provocou ondas de choque que, no momento em que escrevo, são imprevisíveis nos seus efeitos. Embora as medidas anunciadas careçam de mais completa explicação quanto aos efeitos e abrangência, é evidente que implicam mais sacrifícios para a generalidade das famílias. Não discuto a necessidade nem a inevitabilidade, porque nada sei de economia ou de finanças públicas. Não discuto aliás nada: para o caso, constato a realidade. Admitindo a inevitabilidade, impõe-se que o Governo faça mais, muito mais, da sua parte. Perante os sacrifícios impostos à maioria da população, é obrigação do Governo mostrar que sabe poupar. Exige-se que o próximo Orçamento do Estado (e a prática diária do Governo) corte a sério na despesa (para além das retribuições do funcionalismo público). Exige-se a concretização de muitas coisas anunciadas desde o programa do Governo: fim da duplicação de organismos e serviços, racionalização de gastos, corte nas ...

Sobre a televisão e o serviço público

Vai grande a alto o alarido em torno da privatização/concessão da RTP. Vai grande, alto e, em minha opinião, fora de tempo. Tudo começou porque um senhor muito ilustre mas que não tem poder democrático sobre coisa nenhuma disse umas coisas sobre um putativo ‘modelo’ de futuro para a RTP. A ‘técnica’ é conhecida: alguém diz umas coisas, a opinião publicada exalta-se e depois nada daquilo acontece. É o chamado ‘balão de ensaio’ que, desta vez, permitiu perceber a aliança táctica entre todos quantos serão ‘prejudicados’ pela alteração do estatuto da RTP. Não gosto da ‘técnica’, muito menos aplicada à coisa pública. Não simpatizo com o ‘mensageiro’ e penso que a ‘mensagem’ não vale o tempo que se gastar com ela. Penso, aliás, que a discussão em torno do futuro da RTP foi feita (ou devia ter sido feita) há um ano (mais ou menos), aquando da campanha eleitoral e da apresentação do programa do Governo na Assembleia da República. E o que ‘diz’ o dito programa? Basica e resumidamente, que ...

O espírito olímpico

Nas últimas semanas levantou-se algum clamor em Portugal por causa da falta de medalhas olímpicas. Ao mesmo tempo, criticou-se o(s) governo(s) pela falta de apoios e pela falta de exigência curricular ao nível da educação física e do desporto, o presidente do Comité Olímpico por estar há demasiado tempo no lugar, os atletas por estarem ‘acomodados’… criticou-se isto e aquilo, porque sim e porque não. Um País que durante 47 meses ignora tudo quanto não diga respeito ao futebol, acorda ao 48º a exigir medalhas. Há aqui um grande exagero, bem português aliás. Mas o que me trouxe a este tema foi algo mais que criticar A ou B, mesmo C e D. O que me trouxe a este tema tem nome: Clarisse Cruz, atleta portuguesa que corre os 3.000 metros obstáculos nas horas vagas do seu emprego na Câmara Municipal de Ovar. Clarisse Cruz é amadora: trabalha as horas normais durante a semana, tem a sua vida pessoal para acautelar e ainda arranja tempo para treinar: três mil metros, com obstáculos. Três mil ...

Duzentos mil euros

Parece que a passagem da volta a Portugal em bicicleta por Leiria tem um custo de 229.900 euros (a dividir por duas edições da prova). Parece que se justifica este dispêndio com a promoção televisiva de que o Concelho beneficia. Parece-me que 200 mil euros de tempo televisivo seria um excelente negócio. Se Leiria beneficiasse efectivamente de todo esse tempo. Mas não beneficia. Tem uns planos da terrinha antes da partida, tem uns planos da terrinha antes da chegada e depois tem horas de fitas escuras de alcatrão onde passam (e são seguidas) umas bicicletas. Essas fitas escuras tanto podem ser em Leiria como em alguidares de baixo ou charneca de cima. As fitas escuras são iguais em toda a parte… Ah… e tem ainda algumas horas de ‘animação’ em que os inenarráveis do costume guincham e gesticulam ‘alegremente’ perante uma plateia de ‘voluntários’. E por onde, habitualmente, desfilam alguns ‘notáveis’ da terrinha, com o também habitual destaque para o presidente da Câmara. Ah… mas es...

Sobre as ‘novas’ Câmaras

Vai por aí uma razoável polémica em torno da proposta social-democrata de alteração à forma de composição das Câmaras Municipais. Polémica que envolve inclusivamente autarcas e militantes do PSD. Resumidamente, a proposta do PSD prevê a escolha do presidente da Câmara por eleição directa (será o primeiro da lista mais votada). O presidente escolherá posteriormente o seu elenco de vereadores, sujeitos a aprovação da Assembleia Municipal. Há muito que sou partidário de uma solução deste tipo (a par do reforço dos poderes e de mais reuniões da Assembleia Municipal). Em primeiro lugar, porque melhora a operacionalidade do poder local municipal ao mesmo tempo que melhora a responsabilização dos executivos municipais perante os eleitores. Em segundo lugar, porque a actual ‘parlamentarização’ dos executivos municipais pode ser boa para o ‘espectáculo mediático’ mas não é boa para a eficácia: gasta-se demasiado tempo em reuniões camarárias sem que daí resulte qualquer benefício assinalável....

Se isto é Justiça...

Provavelmente já ninguém se lembra como tudo começou. Provavelmente ninguém sabe ao certo o que é (era) o ‘caso Freeport’. Nem interessa, para o que aqui me traz. Segunda-feira, foi notícia o pedido de absolvição, pelo Ministério Público, dos dois arguidos no processo em julgamento no Tribunal do Barreiro. Nada de mais, comentou (por estas ou semelhantes palavras) o Procurador Geral da República. Será. Desconhecedor dos meandros processuais e das minudências legais, admito que sim, que à luz daquelas regras, seja normal. Mas enquanto cidadão parece-me… digamos… estranho que o Ministério Público formule uma acusação (ou lá como formalmente se designa), se realize o julgamento e, nas alegações finais, o mesmo Ministério Público venha pedir a absolvição daqueles que acusou, com base na falta de provas. Falta de provas? A julgar pela pormenorizadíssima ‘investigação jornalística’ que encheu dezenas e dezenas de páginas de jornais, horas e horas de rádio e televisão, provas é o que n...