Postagens

Se isto é Justiça...

Provavelmente já ninguém se lembra como tudo começou. Provavelmente ninguém sabe ao certo o que é (era) o ‘caso Freeport’. Nem interessa, para o que aqui me traz. Segunda-feira, foi notícia o pedido de absolvição, pelo Ministério Público, dos dois arguidos no processo em julgamento no Tribunal do Barreiro. Nada de mais, comentou (por estas ou semelhantes palavras) o Procurador Geral da República. Será. Desconhecedor dos meandros processuais e das minudências legais, admito que sim, que à luz daquelas regras, seja normal. Mas enquanto cidadão parece-me… digamos… estranho que o Ministério Público formule uma acusação (ou lá como formalmente se designa), se realize o julgamento e, nas alegações finais, o mesmo Ministério Público venha pedir a absolvição daqueles que acusou, com base na falta de provas. Falta de provas? A julgar pela pormenorizadíssima ‘investigação jornalística’ que encheu dezenas e dezenas de páginas de jornais, horas e horas de rádio e televisão, provas é o que n...

Para além da poeira

O que aconteceu nestes últimos dias na Câmara Municipal de Leiria e respectivos bastidores é demasiado importante e grave para ficar confinado ao diz-que-disse e a ‘notícias’ laterais. O que aconteceu nestes últimos dias na Câmara Municipal de Leiria e respectivos bastidores diz respeito ao governo do Concelho, ao dia-a-dia dos seus habitantes e tem, evidentemente, efeitos sobre a nossa vida. O ‘folhetim Leirisport’, se assim lhe podemos chamar, é uma história profundamente mal contada, assente na ‘bondade’ do cumprimento de uma promessa eleitoral (coisa bonita para colocar na botoeira do casaco). Em primeiro lugar, durante os quase três anos deste mandato, ninguém foi capaz de explicar (e provar) por A mais B as vantagens e virtualidades da extinção da empresa municipal. Desde um célebre ‘estudo’ de uma empresa de consultadoria (é assim que se escreve?) que, como é regra, concluía o que cada um quisesse ler, até às sucessivas declarações de sucessivos ‘responsáveis’, ninguém foi ca...

O copo meio cheio

É habitual, para ilustrar as diferenças de perspectiva, dar o exemplo do copo de água com metade da sua capacidade ocupada: estará meio cheio para um optimista e estará meio vazio para um pessimista. Veio-me esta comparação à cabeça quando li, esta semana, que os números do desemprego se mantiveram em Maio relativamente a Abril. É verdade que é superior ao mês homólogo do ano anterior, mas parou a descida que se verificava há oito meses consecutivos e o desemprego entre os jovens registou um ligeiro recuo. Sendo desajustado preparar foguetes para assinalar o ‘feito’, vale a pena conjugar este indicador com os números da nossa balança comercial com o exterior. E aqui há progressos, consistentes, assinaláveis: diminuem as importações e aumentam as exportações, com diversificação dos mercados de destino. Disse Winston Churchill, depois de uma das primeiras vitórias aliadas na segunda Guerra Mundial, que não estavam perante o início do fim (da guerra) mas sim perante o fim do início. A...

A modéstia ficava-nos bem

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, disse esta semana que a Europa não aceita lições de democracia e de economia. Disse-o no contexto de uma qualquer cimeira, algures do outro lado do Atlântico. A primeira parte da afirmação parece-me inquestionável: foi aqui que tudo começou (na Grécia antiga); foi aqui que quase tudo se desenvolveu (na Inglaterra e em França, principalmente) e depois crescentemente na maioria dos restantes países; foi daqui que a democracia irradiou para outros continentes, num movimento lento mas seguro e crescente. Quanto à segunda parte (as ‘lições de economia’) já me assaltam muitas dúvidas. É verdade que foi na Europa que, até há algumas décadas, se verificaram os maiores valores de crescimento e desenvolvimento, que foi aqui que, apresar de tudo, se alcançaram maiores índices de justiça social (ou menores índices de injustiça social…). Mas também é verdade que, há algumas décadas também, a Europa (ou a maioria da Europa) estagnou e, mesmo, inic...

Um ano passado

Cumpriu-se esta semana um ano sobre as eleições legislativas antecipadas de que resultou este Governo. É tempo de um primeiro balanço. Em Abril de 2011, lembremos, Portugal pedira ajuda externa para ultrapassar a situação de eminente ruptura financeira em que se encontrava, do que resultou o chamado ‘Memorando de entendimento’ com o FMI, o BCE e a Comissão Europeia. A assinatura deste documento significou para PS, PSD e CDS/PP que a campanha eleitoral se desenrolou com um ‘programa de governo’ antecipadamente definido. Um ano passado, uma boa maneira de assinalar a data é ler a entrevista que Medina Carreira concedeu ao jornal ‘i’ no dia 2 deste mês. Com a sua habitual lucidez, o ministro das Finanças do primeiro Governo Constitucional traça um quadro bem real, e muito duro, da nossa realidade e do que aqui nos conduziu, enquadrando-a na crise mais geral do mundo Ocidental. Permitam-me que sublinhe a que é, no meu ponto de vista, a mensagem essencial desta entrevista: na nossa situ...

Bairrismo

Sou de Leiria, gosto de ser de Leiria e tudo o que mexe com o nome da cidade/concelho/distrito(?) diz-me também respeito. Gosto de ler/ouvir coisas agradáveis, detesto ler/ouvir coisas desagradáveis. Escrevi isto, há umas semanas numa das redes sociais da moda, a propósito da situação que se vivia (e vive) no União de Leiria. Escrevo isto hoje aqui, a propósito de uma ‘notícia’ que li e que, por coincidência, também tem a ver com futebol (mas não só). Li algures que uma “Bancada do Estádio de Leiria [estava] em leilão na net”. E li também, no desenvolvimento da ‘notícia’, que “construída para acolher os adeptos do Euro 2004, uma das bancadas amovíveis do Estádio Municipal de Leiria foi adquirida pela Leirisport - Desporto, Lazer e Turismo de Leiria e está a ser leiloada pelos serviços de finanças de Beja por cerca de 54 mil euros”. A estranheza (digamos assim) nasceu logo no título. Depois li o resto e a estranheza evoluiu para revolta e incredulidade: porquê leiloada em Beja? Encu...

A tragédia grega e nós

O que nos chega por estes dias da realidade grega deve fazer-nos pensar. Não apenas aos cidadãos comuns, mas especialmente aos detentores de cargos políticos. A Grécia é o melhor exemplo do que é viver acima das reais possibilidades de um país e de como um sistema político caduco e fechado sobre si próprio pode contribuir para uma situação insustentável. Saída de um processo eleitoral realizado em circunstâncias dificílimas, a Grécia está praticamente ingovernável. Porque vive à beira da falência e porque, num sinal claro de revolta, os eleitores pulverizaram de tal forma os seus votos que não há outra saída que não seja um nova eleição. Apesar da frustração mal dissimulada de alguns em Portugal, o exemplo grego não remete, na minha opinião, para a revolta (ou revolução) popular, para distúrbios de rua, para o cenário de destruição que as televisões nos vêm mostrando. O que o exemplo grego nos mostra é a falência de uma forma de democracia reduzida aos seus aspectos formais: à rea...