Postagens

Basta de trapalhadas

No preciso dia em que se cumpria um ano sobre a inexistência de governo na Bélgica (fruto do resultado das eleições legislativas e da dificuldade dos partidos ultrapassarem as suas divergências), soube-se em Portugal que haveria um problema com os votos (ou com alguns votos) dos emigrantes no Brasil. Problema que terá motivado a apresentação de dois protestos, cuja apreciação pode prolongar (ainda mais) o apuramento final das eleições de 5 de Junho. Se assim for, ficamos numa posição pior que a dos belgas. Lá, um país populacionalmente semelhante a Portugal, são diferenças ‘nacionais’ (flamengos de um lado, francófonos do outro) que justificam a incapacidade de formar governo. Cá, é mais uma trapalhada… Como se não bastasse precisarmos de três meses (sim, o governo Sócrates ‘caiu’ a 23 de Março) para realizar eleições, contar os votos e assistir à posse do novo governo, ainda acrescentamos um sem número de pequenas, médias ou grandes complicações. Não se entende o (excessivo) prazo ...

Obrigação de voto

"O castigo por não participares na política é acabares a ser governado por quem te é inferior" – Platão É longa de séculos a luta dos povos pelo sufrágio universal e secreto como forma primeira de participação na res publica . Foi longa de décadas a caminhada de Portugal rumo à consagração desse princípio básico da Democracia como ainda hoje a entendemos. Chegou em 1975, mas passados quase 40 anos a participação nas eleições decresceu sucessivamente. Chegámos a um ponto em que pouco mais de metade dos eleitores ‘se dá ao trabalho’ de votar. Significa isto que delegamos nos outros a escolha dos caminhos colectivos. Delegamos, mas queixamo-nos no momento seguinte. Queixamo-nos que o ‘povo’ se ‘enganou’, queixamo-nos dos ‘políticos’ que só se preocupam com eles e com os seus amigos, queixamo-nos da democracia, que não é ‘real’, mas não nos queixamos de nós próprios, os que se alhearam da vida colectiva. As eleições do próximo domingo são mais importantes que todas as anteri...

Big brother

Foi anunciado esta semana o projecto de instalação de quase meia centena de câmaras de videovigilância no centro de Leiria. Os objectivos são louváveis e inquestionáveis, mas repugna-me o meio para os atingir. É verdade que qualquer de nós, nos mais pequenos actos da vida, já prescindiu de uma fatia significativa da sua privacidade: utilizamos cartões de pagamento e a ‘Via verde’, andamos permanentemente com um telemóvel no bolso. Todos esses ‘equipamentos’ deixam rasto, bastando seguir as ‘pegadas’. Mas utilizamos esses objectos porque, quando e onde queremos: basta desligar o telemóvel para nos ‘evaporarmos’… Outra coisa completamente diferente é um sistema de videovigilância. Que não controlamos nem saberemos efectivamente onde está. Mas que está, vê e, presumo, regista. E ser controlado pela PSP não altera o fundo da questão. Incomoda-me saber-me permanentemente observado, mesmo que seja para ‘garantir’ a minha ‘segurança’. Incomoda-me saber que alguém, algures, sabe onde estou...

Um mundo melhor

Há muitos anos (no inícios dos 90 do século XX) tive oportunidade de visitar os campos de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau, provavelmente a maior ‘fábrica da morte’ do regime nazi. Uma das sensações mais marcantes (se é que se pode falar de mais ou menos num tal cenário de horrores) aconteceu quase no fim da caminhada por Auschwitz, quando deparei com a forca onde foi executado o mais conhecido comandante do campo, Rudolf Höss – foi como que um suspiro de alívio: apesar de tudo, tinha-se feito alguma justiça. Enquanto escrevo este texto (na noite de segunda-feira) , é um pouco esse sentimento que me domina relativamente à anunciada morte de Osama Bin Laden. Escrevo ‘anunciada morte’ porque me parece serem ainda poucas as evidências de tal facto: há ainda muita espuma no ar, muitas incongruências nos diversos ‘relatos’, muitas pontas soltas. Apesar do teor assertivo da declaração de Barack Obama e das notícias sobre a conformidade do ADN, a verdade é que Bin Laden era...

Sobre o futuro (parte II)

Há duas semanas enunciei aqui o que penso ser a obrigação mínima dos cidadãos maiores de 18 anos: votar no próximo dia 5 de Junho, seja onde for e em quem for. Infelizmente, e por razões que não cabem nesta prosa, as nossas escolhas estão algo limitadas, controladas até, pela necessidade de intervenção externa no que às contas públicas diz respeito. Dito de outra forma, o programa económico e financeiro para os próximos quatro anos será definido fora do nosso alcance enquanto eleitores. É mau, mas é onde nos colocámos. Assim sendo, penso que a próxima legislatura será uma oportunidade única para mudar o nosso sistema político, designadamente no que respeita à representatividade dos cidadãos e à responsabilidade dos eleitos. A um primeiro nível, e mais que discutir ‘quantos?’, é essencial mudar a forma de eleição dos deputados. É tempo, mais que tempo, de avançar para a definição de círculos uninominais, de acabar com a ‘irresponsabilidade’ de listas, com o princípio de que os cidadã...

Sobre o futuro

Pouco importa, aqui e agora, discorrer sobre o que nos leva a eleições legislativas antecipadas. Tal como não interessa, neste momento, questionar os prazos larguíssimos entre a marcação e a respectiva realização. Da mesma forma, não é tempo de dissecar a quem cabe a responsabilidade da situação que vivemos. É importante debater tudo quanto antecede mas não agora. Algumas questões já tiveram o seu tempo. Outras tê-lo-ão ainda. O importante é sublinhar a nossa responsabilidade colectiva no que à res publica diz respeito. Permitam-me que recue décadas, para recordar a abstenção crescente que se regista em Portugal. Diz-se, ciclicamente e na versão ‘optimista’, que é normal, que ‘na Europa’ também é assim, que não é grave. Diz-se, também ciclicamente e na versão ‘pessimista’, que isto vem sendo assim porque o eleitorado não acredita nos ‘políticos’, que ‘eles’ são todos iguais e que nada merece o ‘incómodo’ de ir votar. Neste espaço não cabe a contestação a qualquer das versões, em...

Nuclear? Não!

Hiroshima e Nagasaki (Japão, 1945), Three Mile Island (Estados Unidos da América, 1979), Chernobyl (Ucrânia, 1986), Fukushima (Japão, 2011). Ali aconteceram os cinco maiores desastres nucleares do Mundo. Eu sei que os dois primeiros não foram bem ‘desastres’; foram bombardeamentos militares, quiçá desnecessários. Mas, tal como os outros, provocaram um número astronómico de vítimas de uma energia comummente apresentada como ‘limpa’. Junto-os aos outros apenas para sublinhar a coincidência trágica de terem ocorrido no Japão, precisamente onde aconteceu o mais recente desastre. O debate em torno do nuclear, enquanto energia limpa e barata que nos pode ‘salvar’ dos malefícios (e preços) do petróleo, ganhou nova actualidade perante a catástrofe japonesa deste mês. Na minha opinião, tecnicamente ignorante mas humanamente preocupado, por muito ‘limpo’ e barato que seja, o nuclear não se justifica enquanto fonte energética. Precisamente por causa dos riscos incontroláveis que encerra. Em Th...